segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Um olhar para trás - um novo olhar para frente


Me encanta a capacidade de olharmos tudo na vida de maneira diferente a cada momento. O que era ontem não será o mesmo amanhã: nós também não.

Um sábado chuvoso.
Uma reunião de amigos.
E nesse cenário duas figuras que me chamaram a atenção.
Duas mulheres.

A primeira, solta e falante.
A segunda, tímida e introspectiva.
Duas mulheres de gerações diferentes, com vidas e experiências diferentes.
Nada mais interessante do que a vivência do novo com o velho. Se é que é possível esse paradoxo.

O que se espera dessa relação?
Atualmente, não muito. A mais velha resigna-se ao seu mundo das lembranças. Mas, nessa tarde cinza seus olhos brilharam pela atenção dada pela mulher mais nova. Ela pergunta, se interessa pelo Outro a sua frente. O que muito estava ofuscado pelo mundo moderno, rápido e muitas vezes indiferente ressurgiu com energia nova, vibrante, surpreendente ao MEUS olhos observadores.

Não seria esse um bom exercício de humanização?
Não seria esse olhar que nos falta?
Quantas vezes eu olhei dentro dos olhos dos que me cercam?
Quantas vezes vi tudo que querem contar? Histórias que viveram e nunca foram ditas?
Certamente, muito menos olhei aqueles que já não me cercam mais.

Isso me fez falta naquele sábado: saber que esse olhar não poderei mais ter.
Mas nada me faz esquecer de que o domingo foi cheio de olhares, profundos, a procurar histórias e vidas ainda a serem contadas.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O tempo em fatias


"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.

Para você, desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a você. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade! "
(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

"As crianças andam não só porque têm pernas, mas porque seus pais assim as permitem."
(Maud Mannoni)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nosso Lar

É sempre complicado analisar filmes baseados em textos religiosos. Já é difícil criticar obras cinematográficas que têm fãs, então imagine as que têm devotos. Quando os defeitos de um longa-metragem como produto são apontados, corre-se o risco de parecer - erroneamente - preconceituoso, desrespeitoso com a fé alheia. Nosso Lar (2010), portanto, é dos mais complexos. Afinal, tem defeitos de monte, mas é baseado em obra fundamental do espiritismo brasileiro, o primeiro volume da série A Vida no Mundo Espiritual, escrita em 1944 pelo médium Chico Xavier (1910-2002).

Entre os integrantes do movimento espírita acredita-se que o texto tenha sido "psicografado", ou ditado, pelo espírito André Luiz, que é justamente o personagem principal do longa-metragem. Na história, o protagonista é um médico que, depois de uma vida de excessos, morre e desperta em outra dimensão, uma espécie de purgatório, o Umbral. Depois de arrepender-se das falhas de sua existência anterior, André é recolhido e levado à colônia Nosso Lar, onde começa seu aprendizado sobre a realidade da vida humana e o funcionamento do universo espiritual - lições essas que ele passa a relatar em cartas enquanto procura mudar seus valores morais.

O didatismo do texto literário, que esmiuça cada detalhe dessa nova realidade, é mantido pelo diretor Wagner de Assis (A Cartomante) em sua versão audiovisual. O resultado, ainda que deva encantar quem já conhece a obra original, é redundante e cansativo para quem se interessa por Nosso Lar apenas como cinema. Por exemplo, enquanto André (Renato Prieto) arrasta-se pelo Umbral, com seu olhar de desespero encarando as hostes sem rumo que lamentam seus destinos, a narração em off teima em relatar aquilo que nossos próprios olhos já estão vendo. A solução só piora ainda mais quando personagens professorais (Lísias, Clarêncio, Governador Anacleto...) surgem em cena para, essencialmente, explicar. E explicam tudo, o tempo todo.

A dramaticidade, portanto, é mero pano de fundo para um filme de reafirmação e disseminação da doutrina espírita. Assim, entende-se desde o primeiro frame o apoio da Federação Espírita Brasileira à produção. O que fica difícil compreender é como um filme de uma doutrina tão positiva (a "Lei de Ação e Reação" é algo com que qualquer um pode se identificar) atropele a fé alheia em nome do espetáculo. Não me importei em momento algum com as diversas cenas que insistem em como os céticos estão errados sobre o pós-vida (é papel óbvio do filme tentar me convencer do contrário), mas a chegada ao Nosso Lar das vítimas do Holocausto, estrelas de Davi costuradas no peito e peot no cabelo, é difícil de assistir. Ainda que tente ser respeitosa e solene, a sequência ignora diferenças fundamentais nos conceitos de vida eterna das duas religiões e me pareceu equivocada e invasiva. Não importa o quanto você tenha certeza de suas crenças - elas são suas e não do outro.

Empenho técnico
Com orçamento estimado em 20 milhões de reais, alocado graças ao potencial de público (estima-se que 2,5 milhões de brasileiros sejam adeptos do Espiritismo), Nosso Lar é a mais cara produção cinematográfica da história do Brasil. Diferente do campeão anterior, Lula - O Filho do Brasil (por volta de 15 milhões), porém, neste o valor do investimento pode ser efetivamente apreciado na tela.

Parte dessa verba ficou com o desafio técnico de criar a colônia espiritual - que me lembrou uma mistura de Brasília com Krypton, desenhada a partir de ilustrações mediúnicas - desenvolvida pela canadense Intelligent Creatures. A empresa é conhecida por animar a máscara de Rorschach em Watchmen e criar cenários para A Fonte da Vida e Anjos da Noite: A Rebelião, entre outros projetos. Os takes aéreos da cidade são muito bem realizados, assim como outras sequências que exigem o uso maciço de efeitos especiais. Tudo muito convincente (os interiores, nem tanto). A produção não economizou também na trilha incidental: chamou Philip Glass, um talento (ainda que irregular) de Hollywood. Infelizmente, sua composição para o filme, intrusiva e óbvia, não está entre seus melhores trabalhos. A fotografia, que imprime à obra os tons de capas de publicações religiosas, também contou com talento importado, o suíço Ueli Steiger (10.000 a.C.).
Com tamanho esmero técnico, não fossem os excesso didáticos (de roteiro e elenco) e o tom de sermão, Nosso Lar seria bem mais importante para a cinematografia nacional do que resultou. De qualquer maneira, é filme que prova que, se houver vontade, o Brasil pode sair do eixo comédia romântica, favela e drama, em direção a outros gêneros ainda pouco explorados por aqui. A intenção é animadora.
(Érico Borgo)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O Último Exorcismo

Filmes de terror de baixo orçamento sempre existiram na indústria, mas agora, aliados à estética documental caseira que virou moda há alguns anos, têm ocupado espaço de destaque nos cinemas. Que estúdio não quer, afinal, investir menos de 2 milhões de dólares e faturar 40 milhões nas bilheterias? Em Hollywood, filmagem tosca virou commodity.

O Último Exorcismo (The Last Exorcism, 2010) é o mais recente exemplo dessa onda. Começa com uma equipe de filmagens acompanhando um pastor exorcista (Patrick Fabian) no que ele espera ser seu último trabalho: ir até uma cidadezinha no sul dos Estados Unidos para desvendar a possessão de uma garota (Ashley Bell). Mas aos poucos, conforme o sjueito, que há anos tira dinheiro dos crédulos sulistas, tenta provar para as câmeras que tal fenômeno não passa de crendice, o cenário começa a parecer cada vez mais estranho. Seria o caso verídico ou mais um trabalho de rotina? Como a equipe de filmagens na trama está efetivamente rodando um documentário, a produção aproveita para incorporar cabos, microfones e cenas de bastidor à história. Os cenários da sinistra Louisiana também ajudam na ambientação realista. A falta de orçamento do filme colabora para suas intenções.

No entanto, como Atividade Paranormal, seu sucessor imediato no gênero, o truque de O Último Exorcismo rapidamente pode ser desvendado. Sem dinheiro não há efeitos especiais, então prepare-se para uma hora de insinuação e expectativa, com direito a close-ups "dramáticos" no rosto da menina encapetada e outras formas de embromação cinematográfica. A produção tem que economizar tudo o que pode até os minutos finais, quando mostrará alguma coisa assustadora de verdade. Curiosamente, nada inédito, já que o filme precisa ser vendido e, como as cenas são as únicas dignas de exposição "marqueteira", você já as conhece do trailer. O lado bom dessa manipulação toda? Sobra tempo para desenvolver personagens e acompanhar o pastor em seu falatório incessante. Sem pirotecnicas o longa precisa se apoiar em sua história, que se torna razoavelmente interessante (ignorar furos de roteiro já é algo inerente ao público) e apresenta algumas reviravoltas decentes ao final.

Mas o público não deve demorar para perceber que em filmes assim a tosquice é muleta e muito pouco acontece de verdade... é apenas uma questão de tempo até que o gênero se canibalize. E se no começo a produção até se esforça para dar alguma qualidade cinematográfica a O Último Exorcismo, a correria e tremedeira a la Bruxa de Blair do clímax é indefensável. Funcionou no passado, mas eu ficaria irritado em pagar uma entrada de cinema para não ver o que está acontecendo. Até o diabo pega na câmera em determinado momento - e saiba você que ele é péssimo cinegrafista.
(Érico Borgo)